segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA FPO: ANATOMIA DUM PROCESSO (I)




Aguardada com natural expectativa, o mínimo que se pode dizer é que a Assembleia Geral Extraordinária da Federação Portuguesa de Orientação não correu da melhor forma. O desejável debate de ideias redundou frequentemente em confronto e as declarações de um elemento da Direcção, já na parte final da Assembleia, provocou a indignação da maioria dos delegados que se levantaram a abandonaram a sala antes de serem dados por findos os trabalhos. A crise está instalada!


Não foi de todo pacífica a Assembleia Geral Extraordinária da Federação Portuguesa de Orientação que teve lugar ao final da tarde de sábado, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gouveia. Conduzida por José Carlos Pires, Presidente da Mesa da Assembleia, a reunião magna da FPO contou com a presença de quarenta e três delegados, um número considerado histórico. À forte adesão verificada não será alheio o facto de estar em causa um Plano de Actividades e Orçamento para o ano corrente com vários pontos a suscitarem as maiores reservas, um Parecer do Conselho Fiscal ao documento francamente negativo e todo um movimento de desconfiança em relação à postura do Presidente da Direcção da FPO e que se foi avolumando nos últimos dias. Uma pontinha de preconceito? Talvez. Mas a verdade é que Alexandre Guedes da Silva nada fez para virar a situação a seu favor.

O Parecer do Conselho Fiscal é determinante em todo este processo. Todos o sabemos, Alexandre Guedes da Silva sabe-o, mais do que ninguém. Se na anterior Assembleia-Geral, praticamente tinha conseguido esvaziar de sentido as recomendações do Conselho Fiscal ao retirar da Ordem de Trabalhos a proposta de apreciação e votação do Plano de Actividades e Orçamento 2011, agora tal desiderato não era de todo possível. O Plano aí estava e o Parecer também, com uma força esmagadora e à qual não havia maneira de fugir. A estratégia a usar tinha de ser outra. A descredibilização do próprio Conselho Fiscal é a via escolhida. Uma escolha que se viria a revelar fatal para as aspirações do Presidente e da própria Direcção. Alexandre Guedes da Silva falha redondamente e o Plano de Actividades e Orçamento é rejeitado por larga maioria de 24 votos contra, 10 abstenções e apenas 9 votos a favor.


Um pouco de história

Vale a pena dissecar o processo que foi esta Assembleia Geral. Ele espelha, para o bem e para o mal, o clima que actualmente está instalado na modalidade. O pedido de votação da demissão da Direcção da FPO e do seu Presidente, apresentado no início da Assembleia pelo delegado do Clube Montepio Geral, Pedro Dias, dava o mote. O Presidente da Mesa da Assembleia considerava aceitar o pedido caso se viesse a verificar o chumbo do Plano de Actividades e Orçamento 2011, pelo que o clima de crispação está instalado. Daí que, ao subir ao palco para defender o Plano Estratégico 2011-2016, Alexandre Guedes da Silva seja um homem bem diferente daquele a que nos habituara. A sua facilidade em expor os assuntos desvanecera-se. As ideias parecem congeladas, as pausas sucedem-se. Não esconde o nervosismo, muito nervosismo. Pendurados dos bolsos, os polegares parecem querer esgueirar-se para parte incerta, levando atrás de si as mãos e o resto. Não. Não era o homem do gesto largo e confiante, do discurso fluente a que estávamos habituados, que ali se apresentava. Havia no seu horizonte uma dúvida que, à medida que a Assembleia avançava, maior evidência tomava: Confronto ou não confronto, eis a questão?

Apesar das alterações de fundo em relação ao anterior documento se resumirem praticamente à fotografia da primeira página e ao tamanho e à cor da letra, o Plano Estratégico 2011 – 2016 é aprovado pela larga maioria de 19 votos a favor, 16 abstenções e 8 votos contra. Afinal, nem haveria razões para tamanha insegurança. Daí que, ao tomar da palavra para defender o seu Plano de Actividades e Orçamento, se visse quase como que uma outra pessoa. Ponderada e incisivamente, Alexandre Guedes da Silva faz questão de dizer que este é um documento que “partiu do zero”. O dedo é apontado à anterior Direcção que não procedeu à natural “passagem de testemunho”. E se o documento partia do nada, depois de se perceber que “a história orçamental da FPO estava errada”, era importante que se atacasse a rubrica que diz respeito ao desenvolvimento da prática desportiva, algo que não acontecera anteriormente. “Sem despesas, sem receitas, o IDP não percebe o que fazia a FPO”, afirma o Presidente da Direcção.


O IDP comprou esta ideia. Cabe à Orientação comprá-la também!

A defesa do documento é convincente para a grande maioria dos presentes. A afirmação de que, se analisado a fundo, “o documento nada tem de inovador, inovador é a apresentação de um projecto integrado pela primeira vez”, colhe entre a assistência. É com profunda atenção que se ouve Alexandre Guedes da Silva afirmar que “o IDP comprou esta ideia. Cabe à Orientação comprá-la também!” Na parte final da sua intervenção, Alexandre Guedes da Silva chama ao palco uma das suas maiores bandeiras: o Alto Rendimento. Faz uma longa pausa para observar atentamente a capa do Plano de Actividades e Orçamento 2011. Nela, Davide Machado pedala vigorosamente em busca do melhor resultado. “É por este jovem que o documento está aqui. Esta é a mensagem!...”, referindo-se ao nível A do atleta na tabela de Alto Rendimento, um facto do qual apenas 15 Federações em Portugal se podem gabar, diz. O histórico da Federação nestas matérias joga contra a modalidade. Nunca se "abrira a boca" para pedir. Ele, Alexandre Guedes da Silva, vai fazê-lo. Com ambição!

As intervenções de alguns delegados, sobretudo preciosas, revelam que as dúvidas existentes à partida, afinal, não se dissiparam de todo. “[Alexandre Guedes daSilva] faz falta na FPO como Relações Públicas; como Presidente, não!”, dirá Pedro Dias, para quem “era bom o que o Presidente aqui disse, mas isso não acontece”. Carlos Monteiro, delegado do COC, corrobora as ideias de Pedro Dias e deixa um “sincero agradecimento do COC ao Conselho Fiscal pelo papel desempenhado em prol da modalidade.” O modelo de subvenção aos clubes vem à discussão. José Carlos Pires procura o consenso, propõe emendas, procura a introdução de cláusulas vinculativas. O Parecer do Conselho Fiscal é o alvo das atenções.


Quando convidei este Conselho Fiscal, pensei que se tratava de pessoas sérias e idóneas. Não são!

Alexandre Guedes da Silva sente-se pressionado e intervém. O tom é dramático quando afirma que 2009 foi um “ano negro”para a FPO. “Problemas com o Conselho Fiscal, uma Federação a funcionar o ano inteiro por duodécimos…”, lembra. E dispara à queima-roupa: “Quando convidei este Conselho Fiscal, pensei que se tratava de pessoas sérias e idóneas. Não são!”

Há burburinho na sala, é impossível calar a indignação. São muitos os que acham inconcebível colocar em causa precisamente a seriedade e a idoneidade do Conselho Fiscal. As palavras que Alexandre Guedes da Silva proferirá a seguir, procurando vincar a ideia de que “nos assuntos formais e de facto sobre os quais o Conselho Fiscal deve reflectir, o documento é omisso”, são patéticas. Estabelecer uma nota de culpa à pessoa do seu Presidente por “abuso de confiança” é inqualificável. É este o sentido dos delegados neste momento. Agora não há como voltar atrás, a convicção de que a Direcção e o seu Presidente – muito mais do que o seu projecto – não serve os interesses da família orientista, na medida em que quebra irremediavelmente os laços entre os seus agentes, é generalizada.


Quando não se tem defesa, privilegia-se o ataque

Toda a gente percebeu, aqui, que Alexandre Guedes da Silva acabava de hipotecar definitivamente toda e qualquer réstea de credibilidade que a sua pessoa, enquanto Presidente da Direcção da FPO, ainda pudesse ter. Ao intervir, Fernando Feijão, Relator do Conselho Fiscal, mostrou toda a sua indignação: “Se todas as questões mereceram resposta, onde está a falta de seriedade?” Leandro Silva, o Presidente do Conselho Fiscal, rebaterá ponto por ponto a argumentação do Presidente da Direcção, resumindo tudo numa frase: “As ideias boas não são inovadoras e as ideias inovadoras não são boas”. Nesta altura, o colégio vê-se confrontado como uma situação que é, no mínimo, inédita: Votar contra o Plano de Actividades e Orçamento 2011 e contra o Presidente e a Direcção que o apresentou é votar a favor do Conselho Fiscal. Não haverá aqui uma situação altamente pervertida?

As duas intervenções seguintes são praticamente uma declaração de voto antecipada. Higino Esteves, a pessoa que presidiu aos destinos da FPO entre1994 e 2002, aqui na qualidade de delegado do ATV, vem introduzir uma nuance que contraria aquilo que Guedes da Silva havia afirmado: “No passado, os quadros competitivos estavam orçamentados.” E referindo-se concretamente a uma das bandeiras desta Direcção no seu processo de candidatura, “se a ambição é louvável, por outro lado não é boa”. E termina reiterando as mais sérias reservas ao modelo. Jacinto Eleutério, delegado da ADFA, vai mais longe e faz questão de dizer que “quando não se tem defesa, privilegia-se o ataque”, colocando o dedo na ferida. Questiona uma remuneração de 13.000 € para os órgãos sociais e propõe a retirada do Campeonato do Mundo de Corridas de Aventura do texto do documento, o que é imediatamente aceite com 31 votos a favor, 8 abstenções e 4 votos contra.


Olhos nos olhos

Pela sua frontalidade e simplicidade, Carlos Garcia, delegado da AFAP, faz então a mais brilhante intervenção duma tarde que há muito se enfiara pela noite adentro. Diz ele que, “por razões de feitio ou de defeito, desconfia daqueles que baseiam a sua promoção em denegrir os que os precederam”. Não se pronuncia sobre o Plano mas pede a Alexandre Guedes da Silva que responda – “olhos nos olhos” - apenas com um “sim” ou um “não” a uma questão muito simples: Será que eu posso confiar em si, na sua equipa e no seu projecto para levar por diante a Orientação?”

Alexandre Guedes da Silva sobe ao palco de novo. Leva algum tempo a acalmar-se e faz um pouco da sua história passada no movimento associativo. Volta a dramatizar, criando um ambiente de constrangimento absolutamente dispensável, quando afirma ser portador de doença degenerativa que, fatalmente, o atirará para uma cadeira de rodas e para a “Orientação de Precisão”. Mas quando responde com um “sim” a Carlos Garcia, é olhos nos olhos que o faz. O olhar baixo só surgirá perante o resultado da votação do seu Plano de Actividades e Orçamento 2011 e que lhe é de todo desfavorável: 24 votos contra, 9 votos a favor e 10 abstenções são a prova inequívoca de que este não é o rumo que se pretende para a Orientação.


Há protagonistas... e protagonistas

A Assembleia Geral aproxima-se do fim. O requerimento do delegado do Clube Montepio Geral para que seja votada a demissão desta Direcção e do seu Presidente cai, graças ao voto contrário do delegado do GDU Azóia. José Carlos Pires retira o ponto da Ordem de Trabalhos referente à proposta de novo Regimento da Assembleia Geral e explica que a demissão da Presidente do Conselho Disciplinar, Margarida Gonçalves Novo, faz com que caia todo o órgão, pelo que a sua substituição será feita pela via eleitoral durante o Portugal O’ Meeting, em dia e hora ainda a determinar. Entra-se nos Assuntos Gerais da ordem de Trabalhos e é então que o Vogal da FPO, Jorge Baltazar, toma a palavra. A maioria dos delegados sente-se enxovalhada pelo destempero do seu discurso e sai em debandada. Há protagonistas... e protagonistas!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:

Mário Santos disse...

É pena, mas já se esperava que as coisas acabassem desta maneira... só não esperava que fosse um processo de erosão tao rápido.

Mas o mal não vem de agora... o mal vem desde os tempos duma AG da FPO em Cheleiros... quando apenas UM Clube votou contra a integração das Corridas de Aventura na FPO... tornando os restantes Clubes (mesmo os que se abstiveram) coniventes com todo o processo que se seguiu e que culminou com esta nova Direcção da FPO.

Por tudo o que se tem passado, continuo a pensar o que pensava na altura: o lugar das Corridas de Aventura é numa Federação própria e não na Federação Portuguesa de Orientação.

Corridas de Aventura não são Orientação.

Mas agora apetece-me dizer que, quem criou ou permitiu o problema, que o "descalce" ou o resolva.

Saudações e bons treinos,

Mário

Ori-BTT de Rosa Choque disse...

Caro Joaquim Margarido,
Quero dar-lhe os meus parabéns pela sua postura muito séria e equilibrada em toda esta história, em tudo contrária àquilo de que foi acusado publicamente.
Além disso, o Orientovar também merece o nosso reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à modalidade. Se não fosse o seu blogue, muita coisa teria ficado por saber, com prejuízo para a Orientação. Ainda há quem ache que é melhor falar baixo e não fazer ondas para ver se o barco não afunda, mas essa postura é digna de cobardes!
O meu MUITO OBRIGADA!

Fabio Silva disse...

De facto um excelente trabalho do Sr. Joaquim Margarido.

É importante que se passe isto cá para fora.
Manter um livre transito de informação quer seja entre delegados, técnicos ou atletas é um passo em frente no desenvolvimento da nossa modalidade.

Ninguém pode esperar saber tudo e, portanto, creio que à luz dos recentes acontecimentos posso certamente afirmar que assim não vamos a lado nenhum!

Esta é simplesmente a minha opinião enquanto atleta, amante da Orientação e alguém que compreende que se isto for parar a "parte incerta" há muito boa gente que tem trabalhado arduamente para chegar agora a um beco.

*deixando ainda aqui um desabafo (e penso que não falo só por mim)...
sensivelmente 5 meses para as competições internacionais e não tenho a melhor das motivações para a selecção uma vez que por enquanto nem sei o que ela é.