segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA FPO: ANATOMIA DUM PROCESSO (II)




A Assembleia Geral Extraordinária da Federação Portuguesa de Orientação caminha para o final. Jorge Baltazar, Vogal da Direcção da FPO usa da palavra. As afirmações proferidas são entendidas pela grande maioria dos delegados como uma provocação, levando-os a abandonar a sala. Mas a Assembleia Geral não terminou.



Chegados a Gouveia na tarde do passado sábado, a Direcção da Federação Portuguesa de Orientação e o seu Presidente têm na Assembleia Geral Extraordinária uma verdadeira “prova de fogo”. O Plano de Actividades e Orçamento 2011 está em cima da mesa, trazendo apenso um Parecer do Conselho Fiscal que não lhe é de todo favorável. Alexandre Guedes da Silva, Presidente da FPO, sabe que terá de ser suficientemente convincente para eliminar o preconceito, afastar as dúvidas e afirmar a bondade de toda uma estratégia e de todo um projecto para seguir em frente. É bom ter presente que esta Assembleia que elegeu os actuais Corpos Sociais da Federação e é a mesma Assembleia que está preparada para, se for esse o caso, os desapossar do cargo apenas três meses e meio volvidos sobre a tomada de posse. Algo aqui não bate certo. Algo terá de ter corrido muito mal para se ter chegado a esta situação.

O Plano de Actividades e Orçamento 2011 é uma base de trabalho. É um documento eminentemente técnico onde se jogam números em parcelas de “deve” e “haver”. Pergunte-se a um leigo se o Plano é mau ou bom do ponto de vista técnico e, em consciência, ele não saberá responder. Logo, é legítimo que seja dado como bom este Plano, entendendo como boa a intenção da Direcção e do seu Presidente em levar por diante um conjunto de medidas em prol da modalidade. Mas se o Plano é bom, são os números que são maus? Pois promova-se o diálogo e encontre-se o consenso relativamente aos números que o resto virá por acréscimo. Ora, é precisamente aqui que as coisas falham.


O feiticeiro e o feitiço

Alexandre Guedes da Silva não consegue gerar consensos, responde da pior forma às questões que lhe são postas, sente um indesmentível prazer em dar a perceber que não é uma pessoa “obediente”, faz questão de vincar que, quanto mais lhe disserem para seguir pela direita, mais ele fará questão de optar pela esquerda. E, depois, este é o SEU Plano, disso não abdica.

A sequência de ocorrências no decurso da Assembleia Geral já aqui foi descrita e é de todos conhecida. Alexandre Guedes da Silva recompõe-se duma primeira intervenção titubeante e, quando parte para a defesa do seu Plano, fá-lo de forma concisa e objectiva. É convincente. Se havia preconceito, ele é relegado para segundo plano. Ressalvando um ou outro caso, aqueles que estariam formalmente contra o Plano de Actividades e Orçamento 2011 revêem a sua posição e parecem estar na disposição de mudar o seu sentido de voto. Tudo acaba, porém, por se desmoronar dum momento para o outro. Não conseguindo ceder à pressão, Guedes da Silva descarrega todas as baterias no Conselho Fiscal, sem perceber que o derradeiro e fatal tiro é sobre si que recairá. O feitiço vira-se contra o feiticeiro. O chumbo do Plano confirma esta situação. Um rotundo falhanço estratégico, do qual o Presidente e a Direcção são as vítimas. Mas a vítima maior é, fatalmente, a própria Orientação.


Debandada!

As declarações de Jorge Baltazar, perante uma Assembleia Geral que acabava de “tirar o tapete” à Direcção da FPO, se são inaceitáveis, até acabam por se compreender. A Direcção perdeu, Baltazar perdeu e não consegue digerir a situação. Toma da palavra com voz trémula. Estica as pernas e afunda-se na cadeira o mais que pode. Não tem coragem para, olhos nos olhos, dizer aquilo que irá dizer. A sua postura não passa despercebida a ninguém. É insolente. Começa por falar em insinuações, em “caça às bruxas” e na “tirania” dos anteriores dirigentes, para fazer vincar a ideia de que esta Assembleia “condiciona à partida as ideias válidas duma das poucas pessoas que apareceram nos últimos anos no seio da modalidade”, e que foi por ela eleita para pôr essas mesmas ideias em prática. O mote está dado. A assistência agita-se. Vinda de algures, é audível a palavra “provocação”.

“Por outro lado”, prossegue, “temos meia-dúzia de pseudo-jornalistas, bloggers e pretendentes a opinion makers que utilizam os seus espaços para fazer eco de toda e qualquer questão que possa pôr em causa os órgãos dirigentes da modalidade...” Como uma mola, a esmagadora maioria dos delegados levanta-se e abandona a sala. Baltazar não se detém: “... E como têm necessidade de protagonismo, são persistentes e minam a modalidade com bastantes artigos de opinião e matérias que de construtivo pouco ou nada têm.”


A partir de hoje vou tomar uma decisão pessoal que tem a ver com o meu futuro na modalidade

Mas os ataques não se ficam por aqui: “Temos ainda um conjunto de atletas que, em vez de se preocuparem em fazer aquilo que sabem fazer bem, perdem o seu tempo a fazer comentários e a tentar mostrar que são muito bons porque treinam duzentos quilómetros por mês, doze horas por semana, quando têm a oportunidade de mostrar porque são bons e porque treinam para esse efeito. Não vale a pena porem-se em bicos de pés para se mostrarem porque é na floresta que têm de o fazer.” Depois de afirmar que “Está na hora de acabar com a hipocrisia”, já na parte final da sua intervenção, Jorge Baltazar confessará: “Esta Assembleia Geral assumiu que o tipo de intervenção que estávamos a fazer não serve para a modalidade. Daí que, provavelmente, a partir de hoje vou tomar uma decisão pessoal que tem a ver com o meu futuro na modalidade. Porque este clima, realmente, não serve a modalidade e não serve os interesses da própria Orientação.”

Num impulso natural, Tiago Aires toma a palavra para se solidarizar com Jorge Baltazar. “No sentido em que percebo a mágoa dele”, diz. “Sei bem ver do outro lado o que os atletas sentem, o que os técnicos sentem, o que é uma modalidade estar congelada há três meses”, refere Tiago Aires, delegado do GafanhOri, para quem o facto deste Orçamento ter sido chumbado “ainda vai fazer com que estejamos mais alguns meses parados.” Depois de referir que se sente muito mal “e mais mal me sentirei em ver que pessoas como o Jorge se afastam da modalidade”, Aires termina a sua intervenção com uma afirmação plena de significado: “Acho engraçado... Parece que se criou aqui uma cultura do tipo 'são loucos, eles estão a querer implementar coisas impossíveis'. Impossível era continuar como estávamos até hoje”, conclui.


Não há aqui forma de entendimento, temos uma modalidade completamente partida

Nuno Leite, delegado do Clube Ori-Estarreja, usa igualmente da palavra para manifestar a sua indignação: “Aquelas pessoas que estavam aqui só para ser do contra são as que se levantaram, demonstrando uma imensa falta de respeito pelo órgão que é a Assembleia Geral.” Também Higino Esteves lamenta o sucedido, aludindo à “atitude que os delegados tiveram e a falta de respeito demonstrada em relação aos órgãos da Federação que foram eleitos por estas mesmas pessoas que daqui saíram.” Na sua intervenção, o segundo Presidente da história da FPO vinca que “independentemente das opiniões que tenhamos, é fundamental que consigamos manter dentro da nossa modalidade a integridade de carácter e a lealdade institucional e pessoal.” Confessando que esta atitude o deixa muito preocupado, Higino Esteves termina com um apelo à intervenção cuidadosa do Presidente da Mesa da Assembleia, “que vai ter um papel muito importante para que nós consigamos encontrar o azimute certo para o próximo ponto de controlo.”

O Seleccionador Nacional para a Orientação Pedestre, Bruno Nazário, também intervém para dizer que “todas estas atitudes que se mostraram aqui hoje põem em causa a modalidade. É sua convicção de que “não há aqui forma de entendimento, temos uma modalidade completamente partida.” As suas últimas palavras devem ser entendidas como um desabafo: “Enquanto técnico, treinador e orientador de atletas, traçador de percursos e organizador de provas, fico extremamente preocupado com o actual estado da modalidade. E saio daqui extremamente preocupado.”


Poderá haver condições para que este Plano avance

É chegada a vez de Alexandre Guedes da Silva intervir. O clima de animosidade latente desapareceu com a debandada geral e o Presidente da FPO mostra-se de novo calmo, pacificado consigo próprio. “Não vai haver crise institucional”, garante. O traçar de linhas mestras, daqui para a frente, já começou: “A primeira coisa que tem de acontecer é uma reflexão sobre a atitude política. Muito provavelmente iremos a eleições, não tenho grandes dúvidas em relação a isso”, afirma. À interrogação que faz a si próprio se isto é mau, responde: “Mau é ter havido apenas uma lista”, deixando no ar a ideia de que voltará a ser candidato, caso este cenário de eleições se venha a colocar. Mas não deixa de lamentar o facto de “as pessoas que estão por detrás disto não terem apresentado já um rosto.”

A atitude do Conselho Fiscal volta a ser invocada, quando afirma que aquele órgão “portou-se mal neste processo, portou-se mal comigo, aquilo que se disse aqui é falso”. Guedes da Silva reafirma a sua determinação em assumir pessoalmente a Nota de Culpa do Presidente do Conselho Fiscal, pelo uso indevido “dum simples formulário com uma simulação feita por mim, não foi um documento entregue ao IDP e ele sabe disso. O que é grave é ele saber disso e ter mentido aqui.” O seu discurso sofre entretanto uma inflexão. “Poderá haver condições para que este Plano avance”, garante. Para tal, “vamos tentar encontrar uma forma de entendimento, vamos trabalhar com o Presidente da Mesa da Assembleia, vamos falar com a oposição – que ela existe ficou claro aqui hoje – e vamos tentar encontrar um equilíbrio neste Orçamento. Se houver viabilidade para o apresentar novamente, assim o faremos; senão, obviamente, o caminho será o das eleições”.


Não aceitarei que esta Assembleia sirva de circo

As últimas palavras serão do Presidente da Mesa da Assembleia Geral, José Carlos Pires, que começa por deixar uma garantia: “Tudo farei para que consigamos ultrapassar esta guerrilha. Uma coisa é certa: Não é correcto e não aceitarei que esta Assembleia sirva de circo.” Referindo-se a um passado bem recente, Pires fez questão de lembrar que “quando se discutiu, quando se deram ideias, esta Direcção foi, embora não de forma unânime, eleita. Isto não é correcto o que se está a fazer e eu fico muito magoado.”

A terminar: “Vou ver se tenho paciência para conduzir as próximas Assembleias. Vamos ser serenos e vamos reflectir, é aquilo que vos peço. E vamos tomar decisões daqui a quinze dias.”


[Na última mensagem, inadvertidamente, atribuí ao delegado da APCA o voto contrário ao pedido de introdução na Ordem de Trabalhos da votação da demissão da Direcção da FPO e do seu Presidente quando, na realidade, o voto foi manifestado pelo delegado do GDU Azóia. A ambos aqui deixo o meu pedido de desculpas]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

José Carlos Costa Reis e Silva disse...

Fiquei boqueaberto com esta Assembleia. Nunca tinha visto nada idêntico. Não reagi porque não tive reflexos. Mas a única hipótese para a Orientação, é da demissão deste presidente, rapidamente e que venha outro candidato.

Ori-BTT de Rosa Choque disse...

Meus caros, a minha paciência esgotou-se definitivamente para este chorrilho de mentiras por parte da Direcção. Se me mantive relativamente calada até aqui sobre o que verdadeiramente se passou nestes meses, não me calarei mais. Brevemente contarei tudo o que sei no meu blogue. O que está em causa não é "paradigma" nenhum; são apenas atitudes totalmente irresponsáveis e altamente questionáveis dum ponto de vista ético por parte da Direcção.
Francamente, já nem federada sou nem penso voltar a sê-lo tão cedo, mas não vou deixar passar em branco!

Almeida disse...

Quem gosta da floresta não planta eucaliptos!!!

Não será uma visão demente pensar em ditadura sem a componente de enriquecimento pessoal dos "poderosos"?

Gratificar as inscrições dos jovens, facultar os equipamentos de controle das provas a preço simbólico, apoiar a participação dos jovens nos eventos, apoiar as escolas, protocolar com as universidades o ensino da modalidade, protocolar com o DE o apoio ao desenvolvimento, criar a homologação dos mapas, apoiar os ori-jovem, criar o regulamento da alta competição, ganhar a candidatura e organizar com sucesso o WMOC, equipar a federação em sistemas e transportes, publicar boas práticas e normas técnicas, publicar um manual, conseguir a cedência de casas e arranjá-las, etc... são actos de ditadura?

Definitivamente os eucaliptos não são árvores agradáveis para a modalidade.

Abraço

Almeida disse...

Como estamos (infelizmente) em tempo de lembrar as ditaduras (!!!) ficam mais alguns actos ditatoriais:
- Assinatura de protocolo de cooperação com a RTP,
- Edição do magazine O-TV,
- Saldo ao momento da saída (sem dividas) de €170.000 depois de distribuídos €120.000 aos clubes parceiros,
- Louvados e distinguidos 10 figuras importantes da modalidade,
- Reconhecidos e distinguidos vários técnicos, atletas e clubes pelo seu mérito
- Discussão pública, coordenada por elementos exteriores à direcção, de todos os regulamentos,
- Avaliação de todos os eventos, coordenada por elementos exteriores à direcção.

Enfim...
Infelizmente há gente com saudades da dituadura (muita gente, felizmente), porquê?
Abandonei a modalidade magoado com "umbigos" mas também por não querer conviver com eucaliptos.

Abraço