sábado, 19 de fevereiro de 2011

LEANDRO PASTURIZA: "ESTE É O MOMENTO DE EU SER ATLETA"





O convidado do Espaço Brasil deste mês é, seguramente, uma figura maior da Orientação brasileira e aquele que, entre todos, maior número de resultados relevantes alcançou. Falamos de Leandro Pasturiza, tetracampeão Sul-Americano, o homem que, no ranking mundial, melhor lugar ocupa entre os atletas do país-irmão.


Leandro Pereira Pasturiza nasceu no dia 26 de Outubro de 1978, em Santo Ângelo, no Estado do Rio Grande do Sul (Brasil). Casado com Mirian Ferraz Pasturiza, outro nome maior da Orientação brasileira, Leandro Pasturiza é Militar do Exército (19º RCMec) e representa o Clube de Orientação San Martin.

Foi na Escola de Sargentos das Armas, em 1998, que Leandro Pasturiza deu os primeiros passos no desporto, participando pela primeira vez em provas populares de Atletismo. A Orientação surgiria na sua vida três anos mais tarde, transformando-se aos poucos numa verdadeira paixão. O título de Campeão das Forças Armadas em 2005 foi o início dum percurso de sucesso, levando-o a competir em países como a Finlândia, Croácia, Lituânia, Estónia, Noruega, Suécia e França, e dando sequência a muitas conquistas, das quais se destacam os quatro títulos de Campeão Sul-Americano, os três títulos nacionais do Brasil, as três vitórias nos 5 Dias de Orientação do Brasil e o triunfo no prestigiado “5 Dias de Orientação de Istambul” (2009), na Turquia, no escalão de Elite.


Está no sangue

Orientovar - Descobriu a Orientação em 2001, numa altura em que a Confederação Brasileira de Orientação era ainda uma criança e o desporto dava os primeiros passos no seu país. Quer-me falar desses tempos?

Leandro Pasturiza - Descobri a Orientação quando morava em Uruguaiana, numa altura em que ela começou a desenvolver-se no Brasil com a criação de Federações, Clubes e também com o aparecimento de bons cartógrafos. Mas para mim foi uma época bastante difícil, por morar longe dos locais de competições, na minha cidade não existir um Clube (depois fundámos o COrU) e ainda pelas dificuldades financeiras. Mas a vontade de praticar Orientação superava os obstáculos. Aprendi a gostar muito deste desporto e sentia sede de realizar um percurso, de tal forma que chegámos a viajar quatrocentos quilómetros só para realizar um treino. Outra dificuldade é que no inicio não tive professor ou técnico para me ensinar. Tive que aprender sozinho e ensinar a Mirian o pouco que sabia. Só em 2004, quando convocado para a Equipa do Exército, é que tive apoio nesse sentido.

Orientovar - Que significado tem, para si, ser orientista?

Leandro Pasturiza - Tem um significado muito especial. Realmente eu gosto muito de Orientação, não consigo imaginar-me fora dela. Às vezes até uso o termo “está no sangue”. Dedico a maior parte do meu tempo a este desporto e sou feliz assim. Orgulho-me de “ser orientista”.


Eu acredito sempre que é possível

Orientovar - Que qualidades reconhece em si e que estão na base dos bons resultados alcançados até ao momento?

Leandro Pasturiza – Optimismo! Acreditar sempre. Por mais difícil que seja, eu acredito sempre que é possível. Acho que é por isso que conquistei bons resultados até hoje. Acredito em DEUS que me dá forças, acredito em Mim por que sei que sou capaz, acredito no treino e, quando estou em prova, sei que preciso de acreditar no mapa, na bússola e nas minhas escolhas e decisões. Outra qualidade é a concentração! Tenho facilidade em concentrar-me e manter-me concentrado e sei que na Orientação esse aspecto é muito importante.

Orientovar - Desde 2005 que a sua carreira está recheada de momentos altos e que fazem de si um "histórico" da Orientação brasileira. Quer falar-me de alguns desses momentos e em que medida foram importantes, não só para si, mas também no contexto da própria Orientação no seu país?

Leandro Pasturiza - Como disse anteriormente, conheci a Orientação em 2001, comecei a competir em 2002, mas decidi ser um Atleta "a sério" só em 2005. Vou explicar: no final do ano de 2004, depois de ter tido algumas frustrações naquele ano e de ter ficado alguns meses parado sem praticar Orientação, um determinado dia (16 de Novembro), depois de pela primeira vez não completar um percurso, disse a mim próprio que “A PARTIR DE AMANHÃ VOU TREINAR”. O meu principal objectivo era, em 2005, estar entre os sete primeiros da Equipa Brasileira para participar no Campeonato Mundial e, por isso, eu realmente treinei, tentei melhorar as minhas deficiências e, para minha surpresa, não só conquistei a vaga para o Mundial como fui o Campeão Brasileiro das Forças Armadas e naquele mesmo ano conquistei o Campeonato Sul-Americano. E esse “historial” eu acredito ser importante para a minha motivação e para motivar outros mais novos que talvez venham se espelhar em mim. Com isso acredito ter contribuído ou estar a contribuir de alguma forma para a Orientação no meu País.


O “tetra” veio porque acreditei até ao fim

Orientovar - Presumo que já recuperou das emoções do triunfo no XIII Campeonato Sul-Americano de Orientação, que teve lugar no seu País em Dezembro passado. Como foi ganhar pela quarta vez a competição?

Leandro Pasturiza - ... Emocionante! O Sul-Americano é o Campeonato maior para nós, aqui na América. Os atletas de Elite preparam-se para este Campeonato e, como ele fecha o ano de competições, obter um bom resultado é um factor motivador para o próximo ano. Ganhei o meu primeiro em 2005, foi uma surpresa porque não esperava chegar ao alto do pódio tão cedo, mas o resultado veio devido à minha grande dedicação naquele ano. O segundo, em 2006, foi resultado do bom trabalho feito em 2005 e ao qual consegui dar continuidade. O “tri”, em 2008, posso dizer que foi o Campeonato que eu estava mais seguro da vitória, pelo facto de 2007 ter sido um ano um pouco conturbado com problemas de lesões e não ter obtido resultados expressivos. Realmente, entrei em 2008 muito bem focado, fazendo uma boa preparação física e técnica e, pelo Campeonato ser numa cidade próxima (Santiago), sabia que seria um terreno no qual eu gosto de orientar, isso deixou-me bastante confiante e tudo ocorreu como eu esperava. Com o Tri alcançado em 2008, no final de 2009 cheguei ao Sul-Americano com o objectivo de buscar o “tetra”. Estava muito bem preparado mas ele não veio, fiquei com o Vice-Campeonato, o Campeão merecido foi o Cleber Baratto que também estava muito bem preparado, assim como todos os demais atletas da Equipe Brasileira.

Em 2010, confesso que não tinha nenhuma pretensão de vencer. No final de Outubro, durante as provas de selecção da equipe brasileira para os Jogos Mundiais, sofri uma lesão, o que me levou a parar com os treinos durante um mês. Não me sentia fisicamente preparado, embora acreditando sempre ser possível. Com um 8° lugar no Sprint, entrei para o percurso Médio à procura dum lugar entre os três primeiros por saber que seria uma prova bastante técnica. Isso aconteceu, fiquei confiante e nessa altura não tinha nada a perder, por isso decidi que correria a prova de Distância Longa no meu máximo e para vencer. Lembro-me do que disse na manhã do dia 12 de Dezembro a Mirian e a três meninos: “Precisamos acreditar, sei que é muito difícil ganhar esse Campeonato mas ainda é possível”. Realizei um óptimo percurso e o “tetra” veio porque acreditei até ao fim. E foi o mais emocionante.


Tenho de adquirir o máximo de conhecimento possível para passar depois a mensagem

Orientovar - As suas preocupações estão exclusivamente ligadas à competição ou também se interessa pelas áreas da organização, supervisão, cartografia ou outras?

Leandro Pasturiza - Eu penso que tudo tem o seu momento e este é o momento de Eu ser Atleta. É preciso aproveitar o momento, portanto hoje sou Atleta e dedico-me para fazer isso muito bem. Sei que chegará o momento de ser cartógrafo ou organizador ou supervisor e fá-lo-hei com todo o empenho e muito prazer. Mas o que gostarei mesmo é de ser técnico e até já tenho em mente alguns planos para o futuro, mas primeiro preciso me preparar para isso. Tenho de adquirir o máximo de conhecimento possível para passar depois a mensagem e, quem sabe um dia, ver Atletas brasileiros entre os melhores do Mundo. Eu Acredito. Hoje temos alguns atletas jovens, entre os 14 e os 16 anos, que temos ensinado e, dentro do possível, levamos às competições dando o apoio necessário. Pena é que não tenhamos condições financeiras para fazer mais.

Orientovar - Como tem acompanhado o crescimento da Orientação no Brasil?

Leandro Pasturiza - Desde 2005 que participo em todas as competições no Brasil e ao longo deste tempo percebi uma grande evolução. Temos hoje mais de 10.000 filiados na Confederação Brasileira de Orientação, mais de 100 clubes e 12 Federações, graças ao óptimo trabalho realizado pela CBO. Posso falar da parte técnica, que é o que mais me interessa, os mapas melhoraram bastante, os traçados dos percursos na maioria das provas estão muito bons e as áreas escolhidas hoje são diferentes de há dez anos atrás. Isto posso dizer que é evolução. É claro que ainda estamos um pouco distantes dos países da Europa, mas se continuarmos trabalhando a sério chegaremos ao mesmo nível ou, pelo menos, muito próximo.


Outro desafio é tornar a Orientação visível para o público brasileiro

Orientovar - Quais os grande desafios que se colocam no imediato à Orientação brasileira?

Leandro Pasturiza - Na área competitiva, um grande desafio é ter uma Equipe de Elite treinando e participando em provas internacionais. Outro desafio é tornar a Orientação visível para o público brasileiro, fazer com que os meios de comunicação se interessem pela divulgação da modalidade, pois acredito que dessa forma teremos mais apoio das entidades públicas e privadas.

Orientovar - Que avaliação faz do actual momento da Orientação em países como a Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Venezuela, Peru e outros da América Latina?

Leandro Pasturiza – Estes países estão hoje onde o Brasil estava há doze anos atrás, dando os primeiros passos. Só agora começam a surgir pessoas interessadas em cartografar, organizar e desenvolver a Orientação. Parabéns a elas, pois sabemos que não é fácil em países do terceiro mundo, que não têm tradição em desportos deste tipo, fazer evoluir a modalidade. Mas com a ajuda, principalmente do Brasil, haverá um crescimento e isso é muito importante para haver uma maior competitividade e com isso o nível dos Atletas da América do Sul, como um todo, melhorará.



O meu sonho é classificar-me para uma Final A

Orientovar - Em que medida a realização dos Jogos Mundiais Militares, que terão lugar este ano no Rio de Janeiro, pode ser importante para a afirmação da Orientação no Brasil?

Leandro Pasturiza - Acredito ser de grande importância para os atletas envolvidos. É uma oportunidade de treino para todos nós, uma vez que os atletas da equipe brasileira são convocados para treinar e participar em eventos. E por ser um grande evento internacional, trará benefícios para o Desporto em geral.

Orientovar - Quais os seus projectos de futuro?

Leandro Pasturiza - Continuar a treinar para me manter na equipa brasileira para os Jogos Mundiais e fazer o melhor possível para obter um bom resultado. Participar no Campeonato do Mundo de Orientação Pedestre, na França, no qual o meu sonho é classificar-me para uma Final A.


Sucesso a todos nós!

Orientovar - Neste início de 2011, quer formular um desejo para a Orientação brasileira?

Leandro Pasturiza – O meu desejo é que todos os Amigos Orientistas tenham um Feliz 2011, com óptimas competições para todos. Desejo coragem e sabedoria aos cartógrafos, organizadores, supervisores e traçadores de percursos, pois com a coragem, vontade e inteligência desse pessoal teremos óptimas provas em 2011. Aos colegas atletas, muita força de vontade e optimismo. SUCESSO A TODOS NÓS!

Para saber mais sobre Leandro Pasturiza, visite a sua página pessoal em http://pasturiza.blogspot.com/ e ainda a página do Clube de Orientação San Martin - http://cosamclubedeorientacao.blogspot.com/ - dinamizada por si e por Mirian Pasturiza.


[Fotos gentilmente cedidas por Leandro Pasturiza e por Mirian Ferraz Pasturiza]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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