domingo, 6 de fevereiro de 2011

PEDRO DIAS, NO RESCALDO DA ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA FPO: "NESTA ALTURA JÁ NÃO HÁ LUGAR PARA ENTENDIMENTOS"




É um duro golpe para as aspirações da Direcção da Federação Portuguesa de Orientação e, em particular, para o seu Presidente, Alexandre Guedes da Silva. Ao votar desfavoravelmente o Plano de Actividades e Orçamento 2011, a Assembleia Geral, o órgão colegial da FPO, parece indicar uma única saída à Direcção e ao seu Presidente: a demissão!


Foi de confronto latente, o ambiente vivido na Assembleia Geral Extraordinária da Federação Portuguesa de Orientação que teve ontem lugar, ao final da tarde, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gouveia. De um lado, uma Direcção e o seu Presidente que tudo fizeram para, ao longo de quase quatro horas, passar como boa a mensagem do “novo paradigma para a Orientação”, seja lá qual for o seu significado ou o que isso possa representar. Do outro lado, um enorme punhado de pessoas que, conhecendo o passado da modalidade, gostariam de “perceber o presente e acautelar o futuro”, tal como expressou um dos delegados à Assembleia durante o uso da palavra. E esta questão do futuro é um dos cernes da questão.

Quanto ao presente – e esse é outro dos cernes da questão -, neste momento é feito de incertezas. Em cima da mesa chegaram a estar duas propostas apresentadas por Pedro Dias, delegado à Assembleia Geral pelo Clube Montepio Geral, visando a votação por parte daquele órgão da demissão da Direcção da Federação Portuguesa de Orientação e da demissão do Presidente da Direcção da Federação Portuguesa de Orientação. As propostas não passaram disso mesmo, graças ao voto desfavorável do delegado da APCA – Associação Portuguesa de Corridas de Aventura, mas a intenção ficou. E porque ficou e está no ar, cheira-se por toda a parte, o Orientovar falou com Pedro Dias, na sua qualidade de delegado. É este o assunto que, mais do que qualquer outro – e que me perdoem o CPOC e os todos os fantásticos obreiros do I Meeting de Orientação de Gouveia, ao qual virei em detalhe mais tarde -, está na Ordem do Dia.


Toda a gente esperava que da Assembleia saísse um novo rumo para a Orientação

Orientovar – Face a uma Assembleia Geral extraordinariamente participada – em termos de delegados, as quarenta e três presenças são um número histórico –, pensa que isto é revelador da preocupação que as matérias em discussão suscita ou é um número meramente circunstancial?

Pedro Dias – Tenho a convicção de que tivemos uma Assembleia bastante participada porque as pessoas estavam interessadas em perceber o que se iria passar. As ocorrências que precederam a Assembleia Geral levaram também a que este interesse aumentasse. Estava na Assembleia um número elevado de delegados mas estavam também muitos agentes da modalidade que, se tal fosse permitido, teriam participado activamente na reunião. Eu já esperava uma grande participação e toda a gente esperava que da Assembleia saísse um novo rumo para a Orientação. Penso que foi esse o motivo de termos uma Assembleia tão participada. As pessoas estavam lá porque se interessam pela modalidade.

Orientovar – A Assembleia começa praticamente com o seu pedido de introdução na Ordem de Trabalhos de um ponto em que se pedia a votação da demissão desta Direcção e do seu Presidente. Quando se pretende pacificar a modalidade, isto não pode ter funcionado como uma provocação?

Pedro Dias – O requerimento aparece na Assembleia Geral porque, como é sabido, não temos muitas. Uma Assembleia Geral tão participada era, pois, o sítio adequado para apresentar a apreciação e votação deste pedido. Era necessário, contudo, que surgisse alguém a tomar a iniciativa. Foi o Montepio, porque é um clube que eu considero independente da Federação. Somos um grupo de vinte atletas, vinte amantes da modalidade e é assim que queremos andar aqui, por amor à modalidade. Não estamos dependentes da Federação para organizar provas, porque simplesmente não as organizamos. Não esperamos nada da Federação, apenas que a Federação exista para que nós possamos praticar a modalidade. Ao longo destes quatro meses que a Direcção da FPO leva de mandato, no entendimento do Clube Montepio, aquilo que era um dos pontos-chave da carta de intenções desta Direcção – unir os praticantes -, tem-se revelado uma enorme falsidade. Já na anterior Assembleia Geral de 29 de Dezembro, tinham sido dadas indicações à Direcção sobre o Plano de Actividades e eis que a Direcção nos apresenta um Plano de Actividades para 2011 que nada trás de novo. Claramente o Presidente e a Direcção da FPO mantiveram um rumo que tinha sido rejeitado. Aquilo a que assistimos ontem foi um movimento de união das pessoas interessadas na modalidade, quase a reclamar que alguém lhes desse voz para mudarem as coisas.


Se não houve diálogo, foram o próprio Presidente e a Direcção que não dialogaram

Orientovar – Mas não teria sido mais adequado ter apresentado o requerimento após a rejeição do Plano de Actividades e Orçamento 2011?

Pedro Dias – Concordo plenamente. Contudo, a forma como as Assembleias Gerais são conduzidas prevê que as alterações à Ordem de Trabalhos sejam feitas no início. Gostaria sobretudo de louvar a atitude do senhor Presidente da Assembleia Geral que soube conduzir de forma exemplar uma Assembleia muito difícil e que de forma correctíssima apresentou o nosso requerimento após a votação e rejeição do Plano de Actividades e Orçamento 2011, como era nossa intenção.

Orientovar – Como disse o Presidente da Assembleia Geral, José Carlos Pires, nunca houvera, anteriormente, nenhum drama em torno das questões técnicas dos Planos de Actividade e Orçamento apresentados por sucessivas Direcções. Porquê agora tanta ênfase em torno dos números? Com diálogo, com outros números, este Plano seria um bom Plano?

Pedro Dias – O Plano de Actividades são números, não se fazem actividades sem números. Estão lá. E pela segunda vez mantiveram-se lá, de forma inalterada. As recomendações de 23 de Dezembro do Conselho Fiscal não foram tidas em conta e o Parecer do Conselho Fiscal sobre o documento que ontem foi rejeitado manteve um teor onde se levanta um extenso rol de dúvidas. Foi mediante esse Parecer e ouvindo várias pessoas dentro da modalidade que entendemos assumirmo-nos como a voz dessas pessoas. Se não houve diálogo, foram o próprio Presidente e a Direcção que não dialogaram, porque não ouviram as recomendações do Conselho Fiscal que estão lá, basta ler. Para responder directamente à sua questão, está em causa a sustentabilidade da modalidade. Algumas ideias são boas mas não são exequíveis, porque são construídas num cenário de grande liquidez que sabemos que não vai existir face à actual conjuntura económica e financeira que o País atravessa. Isto coloca em causa até a própria credibilidade da Federação.


As próprias relações institucionais estão quebradas

Orientovar – Não é normal vermos uma Assembleia acabar daquela forma?

Pedro Dias – Foi muito espontâneo aquilo que aconteceu, em que a maioria da Assembleia debandou mediante uma declaração dum elemento da Direcção. É inacreditável aquilo que ali foi dito. É verdade que foi uma Assembleia tocada aqui e além por episódios de alguma animosidade, mas ninguém estava à espera daquilo que aconteceu, sobretudo vindo de um elemento da Direcção que a modalidade considera bastante. Ficámos muito chocados com esse elemento e gostaríamos de vincar a ideia de que não colamos as declarações à sua pessoa.

Orientovar – Face à actual situação, acha que o diálogo ainda é possível, uma vez que parece ser essa a intenção do Presidente da FPO ao pretender chegar à fala com a “oposição”, como ele a define?

Pedro Dias – Não há aqui qualquer oposição. Existe, isso sim, um conjunto bastante alargado de pessoas que manifesta largas reservas para com esta Direcção e para com o seu Presidente. Eu diria que é a modalidade toda. Muito sinceramente, nesta altura já não há condições para entendimentos. O senhor Presidente e a Direcção sabem que há prazos a cumprir com o IDP, são prazos que não podem ultrapassar Fevereiro. A Federação vai viver em regime duodécimos em Janeiro e Fevereiro mas, se não apresentar nada ao IDP, já não receberá em Março. Depois das recomendações do Conselho Fiscal, o senhor Presidente deveria ter acautelado estas questões e nada fez. Aliás, aquilo a que nós assistimos por parte desta Direcção e do seu Presidente foi um ataque cerrado a um órgão de fiscalização, um órgão que está ali para defender a modalidade. As próprias relações institucionais estão quebradas. Ou seja, estão criadas roturas graves e que eu acho que já não são sanáveis.


Nós devemos muito a este Conselho Fiscal

Orientovar – Há uma alternativa a este Presidente e a esta Direcção? Pode levantar a ponta do véu e indicar alguns nomes?

Pedro Dias – O movimento está a surgir, já existe. Não posso adiantar os nomes das pessoas envolvidas, mas acho que aqueles que estão atentos sabem quem serão. São pessoas que sempre se disponibilizaram para segurar a modalidade quando há problemas, são pessoas que olham para a modalidade com paixão. Mas não queria adiantar mais. A primeira pessoa que deve ser confrontada com os nomes é o senhor Presidente da Mesa da Assembleia Geral. Será ele em primeira mão a saber quem são as pessoas, há-de fazer a sua avaliação e certamente irá perceber, tal como a família orientista, que são pessoas com uma capacidade extraordinária e com provas dadas. Penso que ele irá ter um papel importantíssimo em todo este processo. Conhecendo-o como eu o conheço, penso que ele já identificou as várias feridas que podem ser sanadas e, porventura, se lhe for apresentada uma alternativa credível que surja do movimento da família orientista, acredito que ele próprio irá propor uma Assembleia Geral Extraordinária para se proceder à eleição duma nova Direcção.

Orientovar – O movimento contemplaria uma substituição radical dos orgãos da Federação Portuguesa de Orientação ou apenas à sua Direcção e ao seu Presidente? Colocando de outra forma a questão, caso este Conselho Fiscal manifestasse disponibilidade para se manter em funções, seria reconduzido?

Pedro Dias – Mas não há dúvidas relativamente a isso!... Nós devemos muito a este Conselho Fiscal. Muito mesmo. Isso foi referido na Assembleia e eu gostaria de reiterar os meus parabéns ao Conselho Fiscal pela forma como exerceu a sua função na perfeição e dentro daquilo que a modalidade dele esperaria. A presença dos seus elementos nas Assembleias Gerais foi fundamental para desmontar muita coisa que foi ali dito. Muitas inverdades... Se o movimento for avante, claro que gostaria de contar com este Conselho Fiscal e posso adiantar que será muito fácil unir esta família.


Sobretudo é importante que as pessoas se assumam

Orientovar – E se o movimento for, de facto, avante, quais as suas prioridades?

Pedro Dias – A primeira coisa a fazer seria convocar aquilo a que eu chamaria uma reunião geral de atletas onde se definirá um rumo para a modalidade. Sobretudo é importante que as pessoas se assumam.

Orientovar – Qual é a sua motivação para, no futuro, se manter ligado aos destinos da modalidade?

Pedro Dias – Eu tenho um histórico no desporto desde os nove anos. Passei por algumas modalidades ao mais alto nível e sei muito bem como funciona o movimento associativo. Já estive em clube muito grandes e já estive em clubes pequeninos. Já estive em Federações muito grandes e agora em Federações mais pequenas. Isto é voluntariado. O que nós queremos é que as coisas decorram de forma a conseguirmos promover a prática daquilo que gostem. É essa a nossa função. Quando percebemos que há aqui situações que vão para além disso, isto machuca. Quando há um edifício que ameaça ruir, está em cada um de nós permitir que isso aconteça. Pessoalmente, senti que havia necessidade de dar voz a este movimento de insatisfação e foi isso que aconteceu. Podem contar comigo, claramente, para o que for necessário.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Mário Santos disse...

Liderar qualquer projecto, sobretudo em contexto de mudança, passa por saber envolver os visados nesse processo. Esse envolvimento, seja por falta de comunicação, por estilo de liderança autoritário ou por outra razão qualquer, não aconteceu... e quando houve a possibilidade de "conversar" sobre as coisas, parece que desse debate nada ou pouco resultou. Quando assim é, não é difícil de imaginar que viesse a acontecer o que aconteceu. E aquilo que aparentava ser uma equipa directiva escolhida de modo selectivo, acabou por revelar-se um conjunto de pessoas com muito pouco a uni-los. E quando assim é, não há viabilidade.