terça-feira, 8 de setembro de 2015

Luiz Sérgio Mendes eleito novo Presidente da CBO



A Orientação brasileira viveu, no passado sábado, um momento verdadeiramente histórico. Ao ser eleito como novo Presidente da Confederação Brasileira de Orientação para um mandato de quatro anos, Luíz Sérgio Mendes coloca na “renovação e conciliação” as suas atenções, apontando caminhos de futuro.


Como é que está a viver o seu primeiro dia como o novo Presidente da Confederação Brasileira de Orientação?

Luiz Sérgio Mendes (L. S. M.) - Ainda um pouco cansado da viagem e do longo processo que foi essa mudança promovida no dia de ontem. Para mim este é sobretudo um dia de reflexão, de pensar naquilo que poderemos fazer para atender ao chamamento, àquilo que as pessoas esperam que consigamos colocar em prática. Vivemos um período de dezasseis anos em que tivemos um único Presidente, José Otávio [Dornelles], que não se pode negar fez um bom trabalho na construção da nossa Orientação. Mas os tempos mudaram, dezasseis anos é mais do que uma geração e na verdade a nossa Orientação não progrediu como poderia ter progredido. Havia uma necessidade urgente para que se alterasse a forma de conduzir as coisas. A permanência no poder por parte de qualquer dirigente, independentemente do contexto social no qual essa permanência se enquadre, acaba por ser sempre nefasta. E era isso que vinha acontecendo. Daí que o dia de hoje seja muito importante, nomeadamente para preparar a primeira reunião com parte da nova Diretoria, que terá lugar amanhã aqui em Brasília e na qual trataremos de definir aqueles que serão os nossos primeiros passos.

Serão passos duros, acredito, como duro foi o processo que conduziu à sua eleição. Pedia-lhe que abordasse, na medida do possível, esta matéria.

L. S. M. - A eleição do passado mês de Janeiro decorreu à margem dos parâmetros de normalidade que todos desejávamos. A nossa insatisfação, consubstanciada na posição firme de cinco Federações Estaduais e quatro Clubes, levou-nos a procurar, por todos os meios, que aquela Assembleia fosse anulada. O Presidente reeleito, José Otávio, jamais concordou com esta situação, mas aceitou que em Maio fosse criada uma Comissão Diretiva da Confederação Brasileira de Orientação que procedeu à análise de contas e conduziu parcialmente o processo que resultou no ato eleitoral do passado sábado. Mas em todo esse processo eu acabei por ter uma grande exposição, nomeadamente através da assinatura de alguns documentos, o que levou o José Otávio a reagir com duras críticas. Respondi a essas críticas, expondo os meus pontos de vista pessoais, os quais assumo na íntegra, mas a partir desse momento ambos optámos pelo silêncio e foi assim que chegámos à Assembleia Eleitoral do passado sábado. Nenhum de nós sabia o que iria acontecer. Eu não dialoguei mais com José Otávio, mas houve muita troca de telefonemas e de conversas entre apoiantes do José Otávio e aqueles que aspiravam à mudança. E houve, consequentemente, muitas situações que não deviam ter acontecido mas que ocorreram, situações escusadas mas que acabam por ser compreensíveis neste contexto, dado o momento político que vivemos. Embora a eleição de ontem represente o fim dum processo, a verdade é que não há planeamento que resista quando se desconhece a realidade duma instituição. E essa é que é a verdade. Não tivemos ainda acesso à documentação, aos movimentos, às dívidas da instituição, ao seu património físico, à localização desse património, porque nunca foi realizada uma prestação de contas nesse sentido. Daí também esta necessidade de reflexão, procurando avaliar a medida da dureza dos passos que se avizinham em terrenos de incerteza.

A sua condução no cargo de Presidente da Confederação Brasileira de Orientação corresponde a um desígnio pensado a longo prazo ou foram as circunstâncias destes últimos meses que ditaram a sua candidatura e consequente eleição?

L. S. M. - A ideia de me candidatar foi tomada no regresso do Campeonato do Mundo de Veteranos que decorreu na Suécia, no final do passado mês de Julho. A minha intenção nunca foi essa, mas as circunstâncias levaram-me a tomar essa decisão porque as coisas encaminhavam-se para uma acomodação e para a continuidade daquilo que estava estabelecido. A minha decisão acabou por ir no sentido de organizar uma lista que visasse alterar este quadro e concorremos com o lema “Renovação e Conciliação”. Foi a única Lista que se apresentou a sufrágio.

Percebendo que a “conciliação” é uma das chaves da sua candidatura, pergunto-lhe até que ponto se encontra fracturada a Orientação brasileira.

L. S. M. - Com base naquilo que vimos ontem - uma Assembleia harmoniosa, uma Assembleia tranquila, sem qualquer tipo de agressões verbais -, posso afirmar com absoluta segurança que a Orientação brasileira não está em rotura. Ambos os lados acordaram no entendimento de que a era José Otávio chegou ao fim. Ele deu a sua contribuição até ao dia de ontem e agora é o momento duma nova era. Não uma era com o meu nome, mas uma era de mudança na forma de gerir a nossa modalidade dentro do nosso País, uma era de aproximação à estrutura central que é a Federação Internacional, uma era de abertura aos países da América do Sul e que precisam do nosso apoio. De ora em diante, a Orientação brasileira estará aberta a todos, tanto àqueles que se dispuserem a ajudar-nos, quanto em relação aos que precisarem da nossa ajuda. Temos de estar unidos, comungando dum mesmo desejo que é o fortalecimento do nosso desporto.

Uma vez que menciona o nome da Federação Internacional de Orientação, ocorre-me inquiri-lo sobre o processo que impende sobre a Confederação Brasileira de Orientação relativo ao não pagamento das taxas devidas pela realização dos Mundiais de Veteranos do ano passado e da ameça de suspensão da CBO da qualidade de membro da IOF. Essa situação está sanada ou é uma das heranças pesadas que sobram da anterior Direção?

L. S. M. - Essa situação está parcialmente solucionada, depois do pagamento no final de Junho de mais de 50% do valor de taxas que era devido à Federação Internacional de Orientação, havendo ainda uma parcela de cerca de 36.000,00 € que é necessário solucionar. Mas com o pagamento parcial dos valores em dívida, conseguimos garantir a suspensão de qualquer medida punitiva por parte da IOF. Em Inverness, na Escócia, durante os Campeonatos do Mundo de Orientação, conversei na qualidade de candidato às eleições com o Presidente da IOF e com o Secretário-Geral, o senhor Tom Hollowel, coloquei-os a par da situação vivida atualmente e dei-lhes a minha palavra que, caso fosse vencedor das eleições, tudo faria para quitar a dívida no mais curto prazo possível. Fui atendido nas minhas palavras e, ainda que não haja nada escrito, acredito que aquilo que me foi dito tem valor. Assim que tomarmos posse, informaremos a IOF do estado real da Confederação Brasileira de Orientação e, nessa altura, o prazo para saldarmos a dívida será definido e vamos cumpri-lo.

Foi esta situação de impasse que levou a que o Brasil não participasse nos Campeonatos do Mundo de Orientação, antes optasse por colocar os seus melhores orientistas a competir nos 5 Dias da Escócia, o evento paralelo aos Mundiais?

L. S. M. - Não, não foi por esse motivo. A decisão partiu das Forças Armadas brasileiras e teve a ver com razões de ordem meramente burocrática. A IOF teria aceitado a participação do Brasil nos Campeonatos do Mundo, até porque naquele momento já tinha sido pago parte do valor em dívida. A questão é que as Forças Armadas não tiveram a possibilidade de libertar as verbas para inscrição dos atletas no Campeonato do Mundo em tempo útil, acabando por optar pelos 5 Dias da Escócia, que afinal tinham lugar nos mesmos terrenos, por uma questão de maior flexibilidade de datas e de prazos mais alargados.

Falando agora de renovação, estamos a falar de “desmilitarização” da Orientação brasileira ou o papel das Forças Armadas na Orientação brasileira é de tal forma importante que não há condições para que esta “desvinculação” se possa fazer de forma plena?

L. S. M. - A este propósito, gostaria de ressalvar que a Orientação brasileira é desvinculada das Forças Armadas brasileiras. É verdade que os principais atletas estão vinculados às Forças Armadas, mas os clubes são entidades civis, com estatutos próprios ao abrigo de legislação da sociedade civil. A mudança é demorada e gradativa porque os militares – e entenda-se por “militares” as pessoas que têm por profissão o ser militar – detêm ainda uma boa parte dos meios e do conhecimento. Mas dou-lhe o exemplo de Brasilia, onde há três clubes de Orientação, um deles militar porque é um clube ligado a uma Escola Militar, e os outros dois civis, geridos por pessoas civis, uma mulher e um professor. Então, em Brasília, considero que temos 66 vírgula algo por cento nas mãos de civis. E poderia dar-lhe exemplos idênticos no Brasil inteiro, evidenciando que essa situação está mudando.

Quando falamos em renovação falamos também no facto de se passar a apostar mais na formação e no aparecimento duma nova geração de atletas de Elite?

L. S. M. - Há realmente um grande interesse em que esse processo se instale de forma plena em todo o Brasil. Penso que o José Otávio trabalhou bastante no sentido de levar a Orientação às Escolas e nós queremos prosseguir com esse esforço, mas não é um processo fácil. O Brasil é um País muito grande, são inúmeras as diferenças que ocorrem de Estado para Estado e mesmo dentro dos próprios Estados, pelo que não é fácil encontrar uniformidade na ação. Estamos trabalhando cada vez mais na formação de base mas devo admitir que essa ideia de termos a Orientação em todas as Escolas do Brasil, de termos muitos mais jovens nas nossas provas e a chegarem com 18 e 20 anos às grandes competições internacionais não é realista. Mas trataremos de buscar uma política que nos permita aproximar os jovens da Orientação.

Ano após ano, de primeiro passo em primeiro passo, continuamos sem ver quaisquer passos concretos no sentido da implementação da Orientação em BTT ou da Orientação de Precisão no Brasil. Com o Luiz Sergio Mendes na Presidência da Confederação Brasileira de Orientação isto irá, finalmente, ser uma realidade?

L. S. M. - Queremos aproximar-nos da IOF e isso passa, também, pela formação de cartógrafos e de atletas nessas duas disciplinas. É um conhecimento que não detemos no Brasil e que buscamos, necessariamente. Assim, num primeiro momento, procuraremos estabelecer contacto com pessoas que possam vir aqui e nos possam ensinar o que fazer para darmos os primeiros passos. Penso que os primeiros passos são fundamentais e temos de dá-los de forma certa. Mas isto implicará também uma reforma do próprio sistema, que atualmente se conduz duma forma tradicional e que não permite que haja alguém a tomar conta, de forma exclusiva, da Orientação em BTT ou da Orientação de Precisão. A gestão técnica dentro da CBO está atribuída a uma pessoa apenas e não é possível que essa pessoa possa cumprir a missão sozinha. É necessário criar no seio da estrutura os cargos de responsável pela Orientação Pedestre, pela Orientação em BTT e pela Orientação de Precisão, em separado. Temos de reconhecer que, como disse, não demos sequer o primeiro passo. Estamos ensaiando o primeiro passo, isso sim, mas há aspetos de base que urge salvaguardar.

Irá trazer para Brasília a sede da Confederação Brasileira de Orientação, ou permanecerá em Santa Maria?

L. S. M. - Virá para Brasília, sim. Pretendemos uma reforma estatutária segundo a qual a sede será onde estiver o Presidente. É uma sede itinerante e que, preferencialmente, se instalará numa capital. No caso concreto será em Brasília.

Portugal e o Brasil estão irmanados de forma singular e isso percebe-se igualmente no desporto e, por extensão, na Orientação. Em que medida vai privilegiar a relação com Portugal?

L. S. M. - Na minha viagem à Escócia, tive oportunidade de conversar com o Presidente da Federação Norueguesa de Orientação sobre a minha posição em relação à Europa, ao que lhe respondi que será uma posição de aproximação. “- Portugal está nos seus planos?”, quis ele saber. E respondi-lhe naturalmente que sim, que Portugal está nos meus planos. E como poderia não estar? Estamos ligados por laços de sangue, falamos o mesmo idioma, a nossa cultura funda-se em Portugal... Portugal é o País mais próximo do Brasil e a busca de conhecimento está, também por esse motivo, facilitada. Acredito que Portugal é a nossa porta de entrada e nós faremos uso disso.

Regresso ao início da nossa conversa para lhe pedir que olhe para dentro daquilo que irá ser essa primeira reunião da nova Direção, já amanhã. Veremos um Luíz Sérgio Mendes confiante e otimista ou será um Luiz Sérgio Mendes apreensivo e de sobrolho carregado quem irá dirigir os trabalhos?

L. S. M. - Estou otimista, sim. Apesar dos imensos problemas que irão com certeza surgir, nós contamos com a boa vontade das pessoas. A prova disso é a votação expressiva na nossa Lista, com 21 votos a favor entre os 22 representantes presentes e um voto nulo. Esse apoio, juntamente com as mensagens que nos chegaram pelos mais variados meios, fazem com que tenhamos de estar otimistas. Os desafios são grandes, mas acredito que esta equipa está à altura de os enfrentar. Antes não tinhamos voz, mas agora temos e isso dá-nos toda a força para podermos realizar as mudanças necessárias. Quando temos as ferramentas na mão e temos a vontade das pessoas que estão ao nosso redor, não precisamos de mais nada.

[Foto gentilmente cedida por Luiz Sérgio Mendes]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

1 comentário:

PAULO CALISTO Becker disse...

Parabéns ao SÉRGIO MENDES, parabéns ao JOAQUIM, ambos meus amigos. Dois anos se passaram de um tempo que me abstive de qualquer comentário sobre o nosso esporte. Mas hoje, na condição de Presidente do Conselho Fiscal desta nova Diretoria, congratulo-me com todos e principalmente com o SÉRGIO, nosso Presidente eleito. Temos um trabalho árduo pela frente, mas temos ideias novas, pessoas com com garra e determinação para o trabalho e para colocar a bandeira da CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO no topo. Reconheço o trabalho do JOSÉ OTÁVIO e acredito que ele ainda contribuirá muito para a nossa Orientação.
As palavras do nosso Presidente são de um otimismo e de uma segurança enormes para a sua Diretoria e para os Orientistas. Estamos contigo meu amigo e rogamos a Deus que Ele nos abençoe e nos conduza pelas melhores rotas. SEJAMOS FELIZES!
Becker